
O esporte é o maior fenômeno cultural da atualidade, capaz de reunir e integrar diversas nações e diferentes concepções de vida, ao menos por um curto espaço de tempo. Este fenômeno se tornou um atrativo “natural” para grande parte da população mundial, de maneira que não imaginamos o mundo sem o “espetáculo esportivo”!
Mas, enxugando nossa ideia sobre o esporte, o que realmente atrai as pessoas é o esporte espetáculo ou de rendimento. Essa “modalidade” de esporte é a que acompanhamos na televisão ou qualquer outra mídia. Este esporte cheio de “glamour” que acompanhamos no dia a dia é uma modalidade especial, em que o conceito de saúde se modifica, onde muitas vezes há ausência de saúde!
Esclarecendo as coisas: um atleta de alto nível é pressionado a alcançar resultados expressivos todos os dias, por uma série de questões econômicas que envolvem patrocínios e contratos milionários. Muitas vezes, para alcançar este “êxito”, o treinamento se torna massacrante, indo de encontro aos princípios fisiológicos humanos, acarretando em lesões e outros males.
Este, porém, ainda não é o ponto principal a ser discutido. Mesmo nesta “modalidade” (rendimento) ou nesta maneira de se encarar a prática esportiva, há uma ética e alguns valores que devem ser exaltados dentro da competição. Isto é inegável. Valores éticos como o respeito ao adversário, o famoso “fair play” (jogo limpo) ou a valorização do esforço do adversário para obtenção de uma vitória, mesmo que não acarrete em vitória, são elementos necessários para a perpetuação e manutenção do encantamento na prática esportiva.
Recentemente um fato bastante “curioso” chamou-me a atenção. No mês de agosto do corrente ano aconteceu o Pan-Pac (Pan-Pacífico), uma competição de natação, que reuniu grandes nomes do esporte mundial e foi realizada na Califórnia- EUA. O Brasil estava muito bem representado pelo fantástico César Cielo e seus companheiros. Lá também estavam fenômenos como Michael Phelps e Natan Adrian.
Era uma competição de alto nível, mas o que mais me alertou foi à declaração de Cielo após uma derrota. Segundo o brasileiro, aquela competição não estava sendo muito boa para ele, não eram seus melhores dias e para seus adversários era a melhor competição da vida deles! Antes de qualquer coisa, quero dizer que admiro o talento do nadador, mas ficou bastante clara a arrogância dele para com os adversários. Fácil perceber que ele acredita que a qualquer momento poderá vencer os “oponentes” e que ele sempre será “o melhor”.
A crítica que faço é sobre ética e valores no esporte. Seja esporte para o lazer, saúde ou rendimento. Valorizar a vitória é algo bastante fácil e, nos momentos de auge, bastante exaltado, porém, mais nobre é valorizar a superioridade do adversário. Aceitar a derrota é necessário para alcançar o crescimento e a superação. O caminho da vitória passa pela humildade e por saber reconhecer que naquele momento o outro foi melhor.
César Cielo me decepcionou neste ponto, quando foi arrogante ao transparecer que poderia vencer na hora que quisesse. Isso não me pareceu ético. Talvez a pouca idade tenha influenciado, porém, ele precisa aprender a respeitar o adversário. Não entendam que deve ser perdedor, já que a vitória é tão importante no esporte de rendimento. Para muitos perder é algo “miserável”. Acreditam que quem perde não tem valor. Não falo disso. Refiro-me ao fato de que aceitar uma derrota é o passo mais importante para aprender a ser vencedor.
Entendemos que até mesmo o esporte de rendimento, que é movido por cifras e zeros incontáveis, também carrega consigo um legado de valores éticos que devem ser levados em consideração. É necessário entender que a distância entre a derrota e a vitória é muito curta. São milésimos de segundos que nos tornam homens capazes de crescer com uma derrota ou homens incapazes de valorizar o êxito alheio e, assim, nos manter na mediocridade.